Produção bovina ecológica

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Ana Laura Carrilli
Engenheira Agrônoma
Sintia Bastos
Médica Veterinária
Adenor Vicente Wendling
Engenheiro Agrônomo, Professor

Existem diversas práticas que caracterizam a bovinocultura na agroecologia. Focar na produção a base de pasto, planejar e desenhar os sistemas com base em princípios ecológicos são algumas. A continuação algumas dicas para estabelecer sistemas agroecológicos para criação de bovinos.

Fazer divisão da pastagem em parcelas

Dividir a área implica planejar a área completa e fazer subdivisão com cerca em parcelas denominadas "piquetes" ou "potreiros". A divisão deve contar com sistemas de corredores e sistema hidráulico e ser baseada na produção de biomassa da área (oferta de forragem) e na capacidade de suporte (número de animais que podem pastorear).

Nota
Ao desenhar piquetes deve ser considerado
  • A categoria principal de animais que ocupará as parcelas (vacas adultas, bezerros, animais em recria)
    • Já que o consumo de matéria seca de pastagem difere dependendo do estágio fisiológico dos animais e do peso
  • O número apropriado de parcelas para cada situação
    • Como regra geral, quanto mais parcelas, maior será o aproveitamento da matéria seca disponível na área
  • A necessidade de piquetes "especiais", como:
    • Áreas para manejo de vacas em préparto
    • Piquetes para vacas secas
    • Áreas para animais em cria, recria ou touros
  • Desenho das instalações para as crias
    • Devem ser ajustadas caso a caso em função da raça, mão de obra e objetivo da produção e podem incluir piquetes, áreas cobertas e seguras ou refúgios
  • A instalação de rede hidráulica para alocação de bebedouros
  • Considerar os custos de implantação
    • Os valores são variáveis, porém, em média a alocação de bebedouros e cercas custam (ano 2025) 4 mil reais/ha, com uma carga animal de 2 cabeças por hectare.
Exemplos
  • Em produção de leite, por exemplo, é comum o uso de até 40 parcelas
  • Essa divisão depende também do tempo ótimo de recuperação da pastagem (variável segundo a espécie e época)
  • Ter 40 parcelas, pode permitir o uso de uma parcela por dia se o pasto tiver tempo de repouso de 39 dias

Alocar bebedouros em todas as parcelas

Para manter a área dividida é necessário incluir bebedouros por parcela, para garantir as necessidades hídricas dos animais e garantir o bem-estar animal. Rebanhos com acesso a água dentro dos piquetes produzem mais leite do que aqueles com bebedouros fora do piquete. A presença dos bebedouros nos piquetes garante que a distribuição de nutrientes seja concentrada por parcelas devido a que o comportamento de eliminação fica restrito a áreas pequenas. Manter bebedouros em cada parcela também diminui efeitos da competição social dos bovinos por recursos, já que maior oferta de água garante que animais submissos acessem bebedouros, o que não acontece quando as fontes são escassas.

observação

Os bovinos adultos podem consumir cerca de 80 litros de água por dia, e para cada litro de leite produzido são necessários mais 5l de água.

Cuidar do solo

O tipo, qualidade e produção de massa da pastagem tem relação direta com a qualidade do solo. Solos com menores teores de nutrientes suportam forrageiras menos exigentes e de menor qualidade. O contrário também é verdadeiro: solos de melhor qualidade suportam forrageiras mais exigentes e que em geral são de melhor qualidade.

Relação Solo-Planta-Animal

Costumamos dizer que um bovino engorda em 3 meses, uma pastagem se recupera em 5 anos e um solo demora anos e anos para formar 1 cm. Nesse sentido o manejo feito deverá sempre considerar em primeiro lugar as exigências do solo.

São boas práticas a seguir:

  • Construção de curvas de nível, com ou sem plantio
  • Construção de bacias de contenção de água da chuva para controle de erosão das estradas

Priorizar a formação de pastagem polifítica (diversa) com forrageiras adaptadas

Para formação da pastagem é necessário compreender o histórico do local e o estado da pastagem, sendo avaliado caso a caso. Quando a pastagem se encontra degradada deve ser feita reforma ou recuperação da pastagem. Se existe pasto formado sem degradação, pode ser conduzido processo de manejo com presença dos animais. Nesse caso a primeira recomendação é fazer os piquetes e colocar os bebedouros para conhecer o desempenho da pastagem local com manejo apropriado.

Alocação de árvores em todas as parcelas

Sistema silvopastoril é a inclusão planejada e cuidadosa de árvores e lenhosas nas pastagens em diversos arranjos, com fins de melhorar a conservação ambiental, o bem-estar animal e a produção. Para estabelecer sistemas silvopastoris é necessário o uso da cerca para contenção dos animais. Inspirados nos trabalhos de sistemas de pastoreio racional voisin e agroflorestas, os sistemas silvopastoris visam proporcianar boa produção forrageiras, em pastagens com 3 andares: herbáceas, arbustivas e florestais. Também conservação de solo, controle de erosão, paisagismo e diversos serviços ecossistêmicos relacionados à presença das árvores nas paisagens.

As árvores oportunizam uma série de benefícios para os sistemas produtivos, podendo também servir de sombra e alimento aos bovinos quando em consórcio com a pastagem. As árvores, arbustos ou palmeiras podem ser escolhidas por critério como: fixação de nitrogênio, ser forrageira, fornecer uma boa meia sombra ou crescer rápido.

Arranjos de sistemas silvopastoris

Existem diversas formar de incorporar árvores e lenhosas dentro de pastagens. Algumas delas são:

Arranjos de árvores em pastagens
Silvopastoril em linhas

Indicadas nas divisas dos piquetes, e podem conter arbustos forrageiros para consumo como:

  • amora
  • hibiscos
  • pau-ferro
  • mutambo

Também podem ser plantadas espécies com outras características, como:

  • jerivá cujos frutos podem ser consumidos pelos bovinos
  • bracatinga que servirá pra lenha e é uma leguminosa pioneira, fixadora de nitrogênio
  • eucalipto que cresce rápido apoiando a conservação de solo e a formação de sombra.
Bosques de árvores na pastagem

O modelo favorece distribuição intencionada do sombreamento em todo o piquete o que oportuniza a dispersão de bosta e urina de forma mais homogênia na área

Bancos de proteína

Se realiza plantando espécies forrageiras com alto valor proteico de primeiro e segundo andar adensadas para serem consumidos algumas horas do dia

Planejamento forrageiro

É necessário planejar a oferta de alimento visando manter uma dieta de qualidade e em quantidade apropriada o ano todo para os bovinos. Um bovino consome em média 50 kg de pasto verde por dia e a sazonalidade da produção de pasto acontece em todos os lugares do mundo, sendo necessário produzir alimento em um período do ano e guardar para períodos de escassez de produção natural da pastagem.

Info

Algumas estratégias que permitem realizar planejamento forrageiro e manter a oferta de alimento em épocas de baixa produção são:

  • Uso estratégico de feno
  • Produção de silagem
  • Sobressemeadura de pastagem de inverno
  • Utilização de bancos de proteína
  • Plantio e uso de forrageiras de alta produção de biomassa como a cana de açúcar para compor parte da dieta

Escolha de raças adaptadas

O processo de melhoramento genético tem oportunizado a formação de raças adaptadas a diversos sistemas de manejo, condições edafoclimáticas e objetivos. Isso permite que os animais possam expressar todo seu potencial genético e produzir de acordo com o esperado para raça.

A adaptação ao meio é fundamental para garantir produção adequada, baixa incidência de doenças e apropriado desempenho reprodutivo dos animais.

Construção de protocolos para manejo da saúde do rebanho

A prevenção de problemas de saúde, tendo como referência controle de problemas em nível do rebanho é de grande relevância para a medicina de bovinos. Nessa abordagem são realizados esforços para manter um alto nível de saúde, evitando a realização de tratamentos e cuidados médicos em indivíduos por doenças ou problemas que podem ser evitados.

Medicina preventiva
Alguns exemplos de recomendações na perspectiva da medicina preventiva:
  • Vacinação
  • Bom manejo de registros e indicadores produtivos
  • Elaborar planos de manejo preventivo de doenças de alto impacto (mastite, claudicação, brucelose, por exemplo)
  • Adoção de boas práticas de ordenha e ou manejo dos bovinos de corte
  • Programação do rebanho
    • Ou seja: planejar, todo ano, a quantidade de animais que serão manejados, para evitar sobrepastoreio
  • Manejo racional das pastagens
  • Protocolos de manejo alimentar
  • Cuidados com bezerras e novilhas
  • Elaboração de registros e indicadores, que irão subsidiar a necessidade de ajustes de manejo