Produção bovina ecológica
Existem diversas práticas que caracterizam a bovinocultura na agroecologia. Focar na produção a base de pasto, planejar e desenhar os sistemas com base em princípios ecológicos são algumas. A continuação algumas dicas para estabelecer sistemas agroecológicos para criação de bovinos.
Fazer divisão da pastagem em parcelas
Dividir a área implica planejar a área completa e fazer subdivisão com cerca em parcelas denominadas "piquetes" ou "potreiros". A divisão deve contar com sistemas de corredores e sistema hidráulico e ser baseada na produção de biomassa da área (oferta de forragem) e na capacidade de suporte (número de animais que podem pastorear).
Ao desenhar piquetes deve ser considerado
- A categoria principal de animais que ocupará as parcelas (vacas adultas, bezerros, animais em recria)
- Já que o consumo de matéria seca de pastagem difere dependendo do estágio fisiológico dos animais e do peso
- O número apropriado de parcelas para cada situação
- Como regra geral, quanto mais parcelas, maior será o aproveitamento da matéria seca disponível na área
- A necessidade de piquetes "especiais", como:
- Áreas para manejo de vacas em préparto
- Piquetes para vacas secas
- Áreas para animais em cria, recria ou touros
- Desenho das instalações para as crias
- Devem ser ajustadas caso a caso em função da raça, mão de obra e objetivo da produção e podem incluir piquetes, áreas cobertas e seguras ou refúgios
- A instalação de rede hidráulica para alocação de bebedouros
- Considerar os custos de implantação
- Os valores são variáveis, porém, em média a alocação de bebedouros e cercas custam (ano 2025) 4 mil reais/ha, com uma carga animal de 2 cabeças por hectare.
- Parcelas para leite
- Parcelas para gado corte
- Tempos de ocupação
- Em produção de leite, por exemplo, é comum o uso de até 40 parcelas
- Essa divisão depende também do tempo ótimo de recuperação da pastagem (variável segundo a espécie e época)
- Ter 40 parcelas, pode permitir o uso de uma parcela por dia se o pasto tiver tempo de repouso de 39 dias
- Seria ideal ter múltiplas parcelas, porém, em alguns casos não é possível
- Então ter, no mínimo 8 piquetes já é uma boa opção, para permitir tempo de ocupação médio de 5 dias
- Os tempos de ocupação e repouso podem variar
- O tempo em que uma pastagem chega no ponto ótimo de repouso para ser pastoreada depende de diversos fatores:
- Qualidade do solo
- Aspectos da geomorfologia da área
- Espécies forrageiras
- Condições climáticas
Alocar bebedouros em todas as parcelas
Para manter a área dividida é necessário incluir bebedouros por parcela, para garantir as necessidades hídricas dos animais e garantir o bem-estar animal. Rebanhos com acesso a água dentro dos piquetes produzem mais leite do que aqueles com bebedouros fora do piquete. A presença dos bebedouros nos piquetes garante que a distribuição de nutrientes seja concentrada por parcelas devido a que o comportamento de eliminação fica restrito a áreas pequenas. Manter bebedouros em cada parcela também diminui efeitos da competição social dos bovinos por recursos, já que maior oferta de água garante que animais submissos acessem bebedouros, o que não acontece quando as fontes são escassas.
Os bovinos adultos podem consumir cerca de 80 litros de água por dia, e para cada litro de leite produzido são necessários mais 5l de água.
Cuidar do solo
O tipo, qualidade e produção de massa da pastagem tem relação direta com a qualidade do solo. Solos com menores teores de nutrientes suportam forrageiras menos exigentes e de menor qualidade. O contrário também é verdadeiro: solos de melhor qualidade suportam forrageiras mais exigentes e que em geral são de melhor qualidade.
Costumamos dizer que um bovino engorda em 3 meses, uma pastagem se recupera em 5 anos e um solo demora anos e anos para formar 1 cm. Nesse sentido o manejo feito deverá sempre considerar em primeiro lugar as exigências do solo.
São boas práticas a seguir:
- Evitar a erosão com práticas como
- Adotar práticas para melhorar a qualidade do solo
- Monitorar a qualidade do solo
- Construção de curvas de nível, com ou sem plantio
- Construção de bacias de contenção de água da chuva para controle de erosão das estradas
- Realizando adubação e calagem em superfície de forma parcelada
- Minimizar práticas que impliquem revolvimento agressivo das camadas do solo
- Realizar a rotação das parcelas permite que os animais bosteiem e urinem nos piquetes, ativando a atividade biológica no solo
- Incorporar árvores de maneira estratégica na pastagem com a finalidade de melhorar a deposição e reciclagem de nutrientes no sistema
- Realizar coleta e análise periódica do solo
- As análise devem ser base para realização de adubação e calagem
Priorizar a formação de pastagem polifítica (diversa) com forrageiras adaptadas
Para formação da pastagem é necessário compreender o histórico do local e o estado da pastagem, sendo avaliado caso a caso. Quando a pastagem se encontra degradada deve ser feita reforma ou recuperação da pastagem. Se existe pasto formado sem degradação, pode ser conduzido processo de manejo com presença dos animais. Nesse caso a primeira recomendação é fazer os piquetes e colocar os bebedouros para conhecer o desempenho da pastagem local com manejo apropriado.
Alocação de árvores em todas as parcelas
Sistema silvopastoril é a inclusão planejada e cuidadosa de árvores e lenhosas nas pastagens em diversos arranjos, com fins de melhorar a conservação ambiental, o bem-estar animal e a produção. Para estabelecer sistemas silvopastoris é necessário o uso da cerca para contenção dos animais. Inspirados nos trabalhos de sistemas de pastoreio racional voisin e agroflorestas, os sistemas silvopastoris visam proporcianar boa produção forrageiras, em pastagens com 3 andares: herbáceas, arbustivas e florestais. Também conservação de solo, controle de erosão, paisagismo e diversos serviços ecossistêmicos relacionados à presença das árvores nas paisagens.
As árvores oportunizam uma série de benefícios para os sistemas produtivos, podendo também servir de sombra e alimento aos bovinos quando em consórcio com a pastagem. As árvores, arbustos ou palmeiras podem ser escolhidas por critério como: fixação de nitrogênio, ser forrageira, fornecer uma boa meia sombra ou crescer rápido.
Arranjos de sistemas silvopastoris
Existem diversas formar de incorporar árvores e lenhosas dentro de pastagens. Algumas delas são:
Silvopastoril em linhas
Indicadas nas divisas dos piquetes, e podem conter arbustos forrageiros para consumo como:
- amora
- hibiscos
- pau-ferro
- mutambo
Também podem ser plantadas espécies com outras características, como:
- jerivá cujos frutos podem ser consumidos pelos bovinos
- bracatinga que servirá pra lenha e é uma leguminosa pioneira, fixadora de nitrogênio
- eucalipto que cresce rápido apoiando a conservação de solo e a formação de sombra.
Bosques de árvores na pastagem
O modelo favorece distribuição intencionada do sombreamento em todo o piquete o que oportuniza a dispersão de bosta e urina de forma mais homogênia na área
Bancos de proteína
Se realiza plantando espécies forrageiras com alto valor proteico de primeiro e segundo andar adensadas para serem consumidos algumas horas do dia
Planejamento forrageiro
É necessário planejar a oferta de alimento visando manter uma dieta de qualidade e em quantidade apropriada o ano todo para os bovinos. Um bovino consome em média 50 kg de pasto verde por dia e a sazonalidade da produção de pasto acontece em todos os lugares do mundo, sendo necessário produzir alimento em um período do ano e guardar para períodos de escassez de produção natural da pastagem.
Algumas estratégias que permitem realizar planejamento forrageiro e manter a oferta de alimento em épocas de baixa produção são:
- Uso estratégico de feno
- Produção de silagem
- Sobressemeadura de pastagem de inverno
- Utilização de bancos de proteína
- Plantio e uso de forrageiras de alta produção de biomassa como a cana de açúcar para compor parte da dieta
Escolha de raças adaptadas
O processo de melhoramento genético tem oportunizado a formação de raças adaptadas a diversos sistemas de manejo, condições edafoclimáticas e objetivos. Isso permite que os animais possam expressar todo seu potencial genético e produzir de acordo com o esperado para raça.
A adaptação ao meio é fundamental para garantir produção adequada, baixa incidência de doenças e apropriado desempenho reprodutivo dos animais.
Construção de protocolos para manejo da saúde do rebanho
A prevenção de problemas de saúde, tendo como referência controle de problemas em nível do rebanho é de grande relevância para a medicina de bovinos. Nessa abordagem são realizados esforços para manter um alto nível de saúde, evitando a realização de tratamentos e cuidados médicos em indivíduos por doenças ou problemas que podem ser evitados.
Alguns exemplos de recomendações na perspectiva da medicina preventiva:
- Vacinação
- Bom manejo de registros e indicadores produtivos
- Elaborar planos de manejo preventivo de doenças de alto impacto (mastite, claudicação, brucelose, por exemplo)
- Adoção de boas práticas de ordenha e ou manejo dos bovinos de corte
- Programação do rebanho
- Ou seja: planejar, todo ano, a quantidade de animais que serão manejados, para evitar sobrepastoreio
- Manejo racional das pastagens
- Protocolos de manejo alimentar
- Cuidados com bezerras e novilhas
- Elaboração de registros e indicadores, que irão subsidiar a necessidade de ajustes de manejo
